Mais de um século depois de sua chegada ao Brasil, a história da Beata Assunta Marchetti continua a dialogar de forma direta com o presente. O carisma que a moveu — acolher quem chega sem nada, cuidar de órfãos e amparar migrantes — não é um capítulo fechado do passado, mas uma missão que a Congregação das Irmãs Scalabrinianas mantém viva, agora em escala global.
De 4 irmãs a uma presença em 25 países
Quando Assunta desembarcou em São Paulo, em 1895, era uma entre quatro mulheres cuidando de um punhado de órfãos de imigrantes italianos. Hoje, a congregação que ela sustentou nos anos mais difíceis está presente em mais de 25 países, em quatro continentes, mantendo o foco original: pessoas em situação de mobilidade humana — refugiados, migrantes, apátridas e suas famílias.
Esse crescimento não significou mudança de rumo. Pelo contrário: a razão de ser da congregação segue sendo exatamente a mesma que levou Assunta a atravessar o Atlântico — estar ao lado de quem deixa sua terra por necessidade, não por escolha.
Novas frentes de acolhida
O exemplo mais recente é o Centro de Acolhida Assunta Marchetti, inaugurado em Porto Velho, pertencente às Irmãs Scalabrinianas, com o apoio da Arquidiocese local e do Serviço Pastoral dos Migrantes. Com capacidade para atender até 40 pessoas por dia, oferece acolhida a migrantes e refugiados em trânsito pela capital rondoniense — muitos deles hoje vindos da Venezuela, Haiti e outros países em crise. Um ciclo de acolhida que ecoa diretamente a lógica vivida por Assunta há 130 anos. Esse tipo de iniciativa se repete em diferentes lugares com o protagonismo das Irmãs Scalabrinianas, Colaboradores e Voluntários, sempre com a mesma prioridade dada por sua cofundadora — os mais vulneráveis entre os que migram.
Um símbolo em tempos de crise migratória
A atualidade da Beata Assunta ganha um peso particular no contexto migratório do século XXI. O deslocamento forçado de pessoas — por guerras, crises econômicas, mudanças climáticas ou perseguições — voltou a ser um dos grandes temas globais, e o número de refugiados e migrantes no mundo é hoje o maior já registrado. Nesse cenário, a trajetória de uma jovem que adiou sua vocação contemplativa para acolher órfãos de imigrantes funciona como um espelho direto das urgências atuais.
Foi essa conexão que o cardeal Angelo Amato destacou já no dia da beatificação, em 2014, ao afirmar que a vida consagrada de Madre Assunta carregava uma “mensagem evangélica de extraordinária atualidade” — uma dedicação total à educação, à formação dos jovens, à acolhida aos migrantes e ao cuidado com os doentes e abandonados.
Um processo de canonização em curso
A relevância de Beata Assunta para os fiéis de hoje também se expressa na continuidade do processo de canonização. Depois do reconhecimento do primeiro milagre — a cura inexplicada de um paciente do Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre, após parada cardíaca —, a postuladora da causa segue analisando novos casos atribuídos à intercessão da beata, incluindo relatos recentes de curas em hospitais ligados à congregação no Rio Grande do Sul. Um segundo milagre reconhecido oficialmente abriria caminho para sua canonização, elevando-a de “beata” a “santa” da Igreja Católica.
O legado como bússola
Para a própria Congregação das Irmãs Scalabrinianas, celebrar Madre Assunta não é um exercício de nostalgia, mas um convite a seguir seus passos diante dos desafios de hoje. Sua vida é lembrada não apenas como biografia, mas como método: humildade, simplicidade e disponibilidade total diante de quem sofre. Numa época marcada por fronteiras cada vez mais disputadas e por discursos crescentemente hostis à migração, a figura de uma “mãe dos órfãos” que fez da acolhida ao estrangeiro sua vocação de vida segue sendo, mais de cem anos depois, uma referência para quem trabalha — dentro ou fora da Igreja — com deslocamento humano, infância vulnerável e direitos dos migrantes.
Por Wellington Barros, pelo Serviço de Comunicação da Província Maria, Mãe dos Migrantes


