A jovem Maria Assunta Marchetti desejava ser irmã de clausura. Mas como sói acontecer, Deus fala ao coração, atento à sua voz, de muitas formas. Desta vez, na pobre realidade da Toscana, Itália, Ele falou à Maria Assunta, através do irmão José, já missionário entre os migrantes, em terras brasileiras: “Minha querida irmã, Maria Assunta, sei que queres ser toda de Deus na vida de clausura, mas, agora, te peço, vai diante da imagem do Sagrado Coração e peça-lhe: queres que eu me torne tua em uma vida de clausura ou entre muitas crianças que a migração e a desgraça da orfandade, deixaram abandonadas em terras distantes?”
Assunta, obedeceu. Rezou, ouviu, dialogou e deu seu SIM para sempre: serei a mãe dos órfãos em terras brasileiras. Seu sim era forte, persuasivo, eterno! Com outras três colegas, acompanhadas pelo ardoroso missionário, Padre José Marchetti, juraram a Deus fidelidade ao Esposo Celeste, nas mãos do Fundador, o prelado de Piacenza, Mons. João Batista Scalabrini e partiram! “Migrantes com os migrantes”, para sempre.
Madre Assunta, tornou-se, como gostamos de apresentá-la: “Mãe carinhosa dos órfãos e dos migrantes mais vulneráveis”. Assim nos expressamos, pois, o Papa Francisco, ao aprovar a sua beatificação, assim a apresentou: “Testis caritatis Christe erga migratores et orphanos quorum tenera “mater” fuit”. Ou seja: “Testemunha da caridade de Cristo, para com os migrantes e órfãos, dos quais foi mãe terna”.
Ela não foi, simplesmente, alguém que cuidou dos órfãos. O Papa Francisco escreveu: Testemunhou a caridade de Cristo. Em sua vida, tornou evidente, o amor de Cristo, acolhendo, protegendo, educando, sendo mãe carinhosa, presença que consola, que conforta, que ouve cada pequeno que estava só, abandonado, medroso, inseguro, incapaz de subsistir. Sim, “só uma criança”, precisa ser respeitada, pois é um filho de Deus de valor infinito e, também, um filho de seu coração terno e materno. Para ela, cada órfão era presença de Cristo. Para eles, soube tornar palpável o amor de Deus, pois cada humano é único em sua identidade e tem valor infinito.
Vejo uma ligação muito pertinente entre a Mensagem do Papa Leão XIV para a jornada do Migrante e Refugiado de 2026, e a cofundadora da Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo, Scalabriniana, Madre Assunta Marchetti. Ela soube ver o migrante mais vulnerável, não como um dado estatístico, mas como pessoa, imagem de Deus. Encarnou, de forma exímia, a ternura de Deus Mãe, especialmente para com as crianças órfãs, filhas dos imigrantes.
Seu amor tornou-se concreto: acolhendo, cuidando, acompanhando, educando, estando presente. Todos gestos que Evangelizavam, pois revelavam, aos pequenos, o amor de Deus para quem, cada criança, “apenas uma” (Mt 18,5) é uma filha amada do Deus Altíssimo. Portanto, Assunta foi reconhecida como aquela que ofereceu aos pequenos migrantes a ternura materna que lhes faltava, sendo para eles: uma mãe, um colo, uma proteção, um carinho, uma segurança. A certeza de ser amados!
É, justamente aqui, que a caridade da Bem-aventurada Assunta se encontra com a mensagem do Papa Leão XIV para a Jornada Mundial do Migrante e do Refugiado. Ela acolheu os pequenos, os migrantes, em terras estrangeiras e, neles, acolheu Cristo, serviu Cristo, caminhou com Cristo. Não foi apenas uma mulher que fez o bem. Ela foi uma mulher, através da qual, o amor de Cristo se tornou próximo, concreto e materno.
“Tenera mater” revela o coração da sua missão: ser, para aqueles que haviam perdido referências e segurança, um sinal concreto da ternura de Deus. O Papa não fala em números. A questão não é a “quantidade”. Ele nos diz: “Mesmo uma só destas crianças” (Mt 18,5). Uma só. Uma criança que perdeu os pais; uma criança que perdeu a casa; uma criança que foi mutilada; uma criança que atravessou fronteiras sem saber bem o porquê; que sofreu o drama da guerra; da exploração sexual; do tráfico de órgãos; de mil atrocidades.
Infelizmente, houve e há outra lógica em nossos dias. Não é por acaso que, na Sagrada Escritura, o poder necrófilo que se opõe ao Reino de Deus ganha corpo nas figuras do Faraó (AT) e de Herodes (NT), duas autoridades que ordenaram o assassinato massivo de crianças. E hoje?! Atenção! Uma criança é um ser em desenvolvimento: não tem poder, não tem plena autonomia, é só! Ela nem sempre consegue articular seus direitos como um adulto. Às vezes, nem consegue contar tudo aquilo que já sofreu.
Precisamos criar espaços interpessoais e institucionais para “uma escuta profunda da sua história, dos receios e dos sonhos de cada uma delas”. Crianças não são meros objetos de assistência e cuidado, são também sujeitos ativos que nos ajudam a interpretar a realidade com sua própria perspectiva. O apelo bíblico de nos tornarmos como crianças (Mt 18,1-4) talvez, possa se encarnar na escuta sensível de suas vozes, de seus gestos e de suas expressões. As crianças migrantes, em sua vulnerabilidade, são também sujeitos evangelizadores. A Mensagem pede que sejamos sinais vivos do Evangelho. Pessoas e Instituições benditas que se dedicam, diariamente, a curar as feridas invisíveis dessas crianças que se encontram ao longo das rotas da migração e em nossas cidades, precisam dessa escuta profunda e terna!
O Papa recorda que cada ser humano possui uma dignidade infinita, porque foi criado à imagem e semelhança divina. Por isso, diante de uma criança migrante, acolhê-la é muito mais do que realizar uma obra de assistência: é realizar um ato de humanidade, de evangelho, de fé, porque podemos encontrar nela, o próprio Jesus.
Gestos assim tem profunda afinidade com a vida da Bem-aventurada Assunta Marchetti. Sua ternura não era sentimentalismo. Era caridade concreta. Ela acolhia, cuidava, educava, consolava, rezava e confiava na Divina Providência. Sim, mesmo uma só criança merece ser acolhida. Mesmo uma só vida merece ser defendida. Mesmo uma só pessoa merece nosso amor. Aqui está, talvez, uma das conexões mais bonitas para nossa reflexão. O Papa, nos pede hoje, que olhemos, mesmo que para “uma só destas crianças”.
A Bem-aventurada Assunta, fez isso, há mais de um século. Ela encontrou crianças órfãs e abandonadas em meio à grande corrente migratória que chegava ao Brasil. E não ficou indiferente. Ela ofereceu sua vida, para sempre. Portanto, nela podemos contemplar uma testemunha antecipada da mensagem desta Jornada.
O Papa nos diz: “Acolher é encontrar Cristo.” A Bem-aventurada Assunta respondeu com sua vida: “Toda a minha confiança eu a coloco no Amabilíssimo Coração de Jesus. Por isto acolho e desejo morrer entre as minhas crianças! Sinal de uma vida doada em favor dos pequenos migrantes, onde Cristo lhe dizia, no silêncio das madrugadas: “Sou eu, Assunta! Sou teu Esposo Celeste”, em cada um destes filhos pequenos que acolhes!
Este é um dos principais legados que a Bem-aventurada Assunta Marchetti nos deixou: Não precisamos salvar milhões, mas uma só criança migrante, uma só, merece ser acolhida, amada, respeitada, evangelizada!
Irmã Leocádia Mezzomo, mscs
Postuladora da causa de Canonização


